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“Calambanha”: Elias de França e a arte que nasce do chão e atravessa a palavra

  • Foto do escritor: Fluxo BH
    Fluxo BH
  • 17 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Do sertão de Crateús para os palcos, páginas e canções do Brasil, a trajetória de Antônio Elias de França é a de um artista cuja obra brota da experiência vivida. Filho de agricultores, ele conheceu primeiro a criação antes da escola — e foi nesse aprendizado cotidiano, feito de oralidade, trabalho e observação, que começou a nomear o mundo.

Nascido no interior do Ceará, Elias só passou a frequentar o ensino formal aos 18 anos, quando se mudou para a cidade. Onde nasceu, não havia colégios. Ainda assim, desde menino inventava melodias, criava versos, contava causos e produzia artesanatos com as mãos: palha, redes de pesca, crochê. A cultura popular foi sua primeira sala de aula, e a palavra, sua ferramenta de permanência.

Esse percurso autodidata se transformou em linguagem artística múltipla. Escritor, compositor, dramaturgo, ator e músico, Elias de França construiu uma obra que atravessa diferentes campos da criação, acumulando dezenas de prêmios em certames culturais. Ao mesmo tempo, buscou formação acadêmica: graduou-se em Pedagogia e concluiu pós-graduação em Administração Escolar pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). No serviço público, atua como Auditor Fiscal da Receita Estadual do Ceará, conciliando a carreira técnica com uma produção cultural contínua e intensa.

Na literatura, são dez livros publicados e participação em outras dez obras coletivas. Sua escrita percorre poesia, literatura infantil e juvenil, cordel, dramaturgia, contos e pesquisa histórica. Em todos os gêneros, o traço comum é o diálogo com a tradição oral nordestina, preservando ritmo, musicalidade e olhar social, sem abrir mão de reflexões universais.

A música ocupa lugar central nessa trajetória. Quinze canções de sua autoria já foram gravadas por outros intérpretes e bandas. Seis delas integram o álbum Mira Lua, de Silvio Holanda, lançado pelo selo da Gravadora Camerati, registro que consolida sua presença no cenário autoral brasileiro.

É nesse contexto que surge o lançamento da canção “Calambanha”, obra que nasce do encontro entre poesia, memória e música. A composição decorre de um poema publicado originalmente no livro A ave canora da Calambanha – vida e obra do Mestre Lucas Evangelista, coletânea organizada pelos poetas Dideus Sales e Helonis Brandão, com a participação de escritores e escritoras de Crateús, do Ceará e de outras regiões do país.

O título da canção remete à Várzea da Calambanha, sítio onde viveram os pais de Lucas Evangelista — lugar que hoje não existe mais, submerso pelas águas do Açude Carnaubal. A história do nome atravessa o imaginário sertanejo: ao se casar com Maria Evangelista, vinda de outra região, o pai de Lucas recebeu do sogro uma várzea para morar. Ao indicar o local, o velho fazendeiro apontou “pra aquelas bandas”. A expressão, no linguajar nativo, foi entendida pela nora como “Calambanha”, arrancando risos dos presentes. Mesmo após o esclarecimento, o nome pegou — e assim ficou marcado na memória do lugar e, agora, na canção.

“Calambanha” tem autoria e concepção de Elias de França e Paulo André (PA), e reúne um time de intérpretes convidados: Lucas Holanda, Celsinho, Luzia Dias, Ernesto e Ivonete Alves. Os vocais ficam por conta de Elias de França, Paulo André, Celsinho e Ivonete. A produção de estúdio, os arranjos e a masterização são assinados por Genivaldo Lima, com acordeon de Izaias de Sousa. O resultado é uma obra que transforma lembrança em som e território em palavra cantada.

Além da criação individual, Elias de França atua na organização e valorização da vida cultural de sua região. É cofundador da Academia de Letras de Crateús, instituição da qual foi o primeiro presidente, reforçando seu compromisso com a memória, a formação e a defesa do patrimônio imaterial.

Ao longo de toda a vida, Elias manteve-se fiel a uma causa: a da arte como expressão da cultura raiz do povo brasileiro. Entre o sertão e a cidade, entre a palavra escrita e a cantada, sua obra reafirma que a criação não nasce apenas dos livros, mas do chão, da escuta atenta e da experiência compartilhada. É dessa matéria viva que Elias de França segue fazendo arte — uma arte que atravessa o tempo, a memória e a palavra.

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