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Venda Nova: 315 anos de história, identidade e resistência na capital mineira

  • há 23 horas
  • 5 min de leitura

Muito antes de Belo Horizonte existir, a região de Venda Nova já fazia parte da história das Minas. Em 2026, o distrito celebra 315 anos de uma trajetória marcada por sesmarias, tropeiros, caminhos, transformações territoriais e uma identidade que permanece viva.

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Por Josemar Alvarenga

Há lugares que não podem ser compreendidos apenas pelo mapa atual. Venda Nova é um desses territórios. Em 2026, o distrito chega aos 315 anos de história, carregando uma trajetória que começou muito antes da criação de Belo Horizonte e até mesmo antes da formação da Capitania de Minas Gerais como unidade administrativa independente.

A origem histórica da região está relacionada às sesmarias concedidas pela Coroa portuguesa no início do século XVIII, em um período de intensa ocupação do território das Minas. Documentos históricos apontam para uma sesmaria concedida em 1711 a Ignácio da Rocha Feyo, cuja propriedade alcançava áreas que ultrapassavam a região atualmente conhecida como Venda Nova. Estudos sobre a ocupação territorial também registram o povoamento da região no início daquele século.

É importante compreender o contexto. As sesmarias eram concessões de terras destinadas à ocupação e ao aproveitamento econômico, especialmente para atividades agrícolas e pecuárias. Já as chamadas datas minerais estavam associadas à exploração das riquezas minerais, particularmente durante o ciclo do ouro.

No final do século XVII e início do XVIII, a descoberta de ouro nas Minas provocou uma verdadeira corrida populacional para o interior da Colônia. A região passou a receber pessoas, animais, mercadorias e tropas que percorriam antigos caminhos em direção às áreas mineradoras.

E é justamente aí que Venda Nova ganha importância.


Antes da capital, havia os caminhos


Pesquisas acadêmicas sobre a formação territorial da Região Metropolitana de Belo Horizonte registram que a ocupação de Venda Nova é contemporânea à do antigo Curral del Rey, núcleo que posteriormente daria origem à capital mineira. A atual Rua Padre Pedro Pinto, antiga Rua Direita, fazia parte dos caminhos utilizados por tropeiros e pelo transporte de gado destinado às regiões auríferas.

Venda Nova, portanto, não nasceu como um simples bairro de Belo Horizonte.

Sua história está ligada a uma paisagem muito mais ampla, formada por fazendas, caminhos, córregos, rios, criação de gado, comércio e circulação de pessoas. Era um território de passagem e permanência, situado em uma posição estratégica entre diferentes regiões das Minas.

Quando a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro foi criada, no início do século XVIII, a região já estava inserida nesse processo de ocupação. Em 1720, a capitania foi desmembrada, dando origem às capitanias de São Paulo e de Minas Gerais.

Por isso, quando se fala que Venda Nova é mais antiga que Minas Gerais, a afirmação faz sentido quando relacionada à formação administrativa de Minas Gerais em 1720: a história documental da região remonta a 1711.

É uma diferença de poucos anos no calendário, mas enorme em significado histórico.


Mais antiga que Belo Horizonte


Venda Nova também antecede em quase dois séculos a própria criação de Belo Horizonte.

A antiga capital mineira era Ouro Preto. Somente no final do século XIX surgiu a nova capital, construída sobre o território do antigo Curral del Rey. Belo Horizonte foi inaugurada em 12 de dezembro de 1897.

Venda Nova, naquele momento, já possuía uma longa trajetória.

A documentação histórica registra que, ao longo dos séculos, o território passou por diferentes vínculos administrativos. Antes de sua incorporação definitiva à capital, em 1948, Venda Nova esteve relacionada a municípios como Sabará, Santa Luzia e Ribeirão das Neves. A anexação a Belo Horizonte ocorreu depois de reivindicações da própria comunidade.

É justamente essa trajetória que ajuda a explicar uma característica marcante da região: Venda Nova possui identidade própria.

Não é apenas uma denominação administrativa dentro de Belo Horizonte. É uma comunidade histórica, com memória, patrimônio, personagens, tradições e uma população que reconhece no território uma história própria.


Uma identidade que resistiu às transformações


Ao longo do século XX, entretanto, a configuração territorial de Venda Nova sofreu profundas transformações.

A expansão urbana de Belo Horizonte alterou antigos limites, caminhos e referências geográficas. A região deixou de apresentar as características predominantemente rurais que marcaram seus primeiros séculos e passou a integrar definitivamente a dinâmica de uma grande metrópole.

A partir da década de 1960, mudanças administrativas também contribuíram para modificar a percepção territorial do antigo distrito. A criação da Administração Venda Nova e, posteriormente, a reorganização administrativa da capital contribuíram para uma nova divisão dos espaços e das responsabilidades municipais.

O processo de urbanização acabou fazendo com que o nome Venda Nova passasse a identificar, simultaneamente, o distrito histórico e uma área urbana muito maior e mais complexa.

Essa transformação criou uma situação curiosa: quanto mais Belo Horizonte crescia, mais a antiga identidade territorial de Venda Nova parecia ser diluída dentro da metrópole.

Mas a memória permaneceu.


O território que sobrevive na memória


Hoje, falar em Venda Nova é falar de uma região que ultrapassa seus limites administrativos contemporâneos.

É falar das antigas fazendas, dos caminhos de tropeiros, das águas que ajudaram a definir fronteiras, das relações com a Pampulha e com os municípios que, em diferentes momentos, estiveram ligados à sua história.

É também lembrar que a atual configuração urbana não corresponde necessariamente aos limites históricos do antigo distrito.

Esse é um dos grandes desafios para quem pesquisa a história de Venda Nova: separar o território histórico do território administrativo atual.

A expansão de Belo Horizonte modificou os mapas. Mas não apagou as origens.


315 anos depois


Em 2026, quando Venda Nova comemora 315 anos, a celebração não deveria ser apenas uma festa de aniversário.

É uma oportunidade para discutir memória, patrimônio, identidade e pertencimento.

Poucos lugares de Belo Horizonte podem apresentar uma trajetória histórica tão longa e tão ligada aos primeiros movimentos de ocupação das Minas.

Antes da nova capital, já existiam caminhos.

Antes das grandes avenidas, havia estradas de terra.

Antes dos bairros, havia fazendas.

Antes da metrópole, havia os tropeiros.

E antes de Belo Horizonte ser Belo Horizonte, Venda Nova já fazia parte da história desse território.

Talvez seja justamente essa a maior riqueza dos seus 315 anos: não ser apenas uma parte da capital, mas carregar consigo uma história que começou quando o território das Minas ainda estava sendo desenhado.

Venda Nova mudou. Belo Horizonte mudou. Os mapas mudaram.

Mas a memória de Venda Nova continua sendo maior do que seus limites atuais.

E, 315 anos depois, essa história ainda está sendo contada.

Josemar Otaviano de Alvarenga nasceu em 1948, na Fazenda da Cachoeira, Santana do Riacho, Serra do Cipó; pertencia a Jaboticatubas = Grande Árvore de Comida de Jabuti, na Serra do Espinhaço, Vale do Rio das Velhas. Ainda lactente, mudou-se para Belo Horizonte, Rua Além Paraíba, Lagoinha, erradicando pouco depois, em Venda Nova, onde fez o curso primário no Grupo Escolar Santos Dumont.

Aos dez anos foi morar com os tios na casa dos avós paternos, na Av. do Contorno esquina com Pernambuco, Bairro dos Funcionários, apelidado de Savassi. Cursou o secundário no Colégio Municipal Honorina de Barros, "Universidade do Santo André" e Medicina na UFMG, onde se formou em 1971. Foi médico da FAB, no Rio de Janeiro e Lagoa Santa. Pós-Graduado em cirurgia geral, ortopedia e traumatologia.


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